Bom apetite!

ter fome e ir jantar a um restaurante que está a abarrotar pelas costuras pode não ser a melhor escolha para um qualquer dia da semana.

ter fome e ficar meia-hora à espera que o nosso pedido seja disposto à nossa mesa para que possamos, finalmente, ter acesso a um dos maiores prazeres da vida – pelo menos para mim, comer é um enorme prazer – pode ser uma experiência crescente de ansiedade. enquanto nos sentamos e lemos o cardápio, vamos imaginando o sabor do que acabámos de pedir – à fome junta-se agora a vontade de comer! depois de pedirmos, começa a espera, e alguns momentos agonizantes vão-se sucedendo.

um dos mais difíceis de suportar é quando vemos a nossa tagliatelle com camarão surgir, naquele seu aspecto deleitante, no balcão. o empregado de mesa suporta o seu peso e dá início à viagem que levará o prato que pedimos até à nossa mesa. qual cão de Pavlov começo a salivar – finalmente a divina refeição chegou! ‘mas….mas….mas então porque não paraste aqui na minha mesa, oh senhor empregado de mesa?mas…esse era o meu pedido’ e os olhos arregalam-se de espanto e de descontentamento à medida que vamos vendo outro cidadão saborear o que era suposto ser nosso!

o desapontamento cresce, e deixa-me por momentos a olhar para o guardanapo e para o pequeno prato das entradas, já há algum tempo abandonado no centro da mesa. novo pedido surge no balcão que separa a cozinha da sala de jantar do restaurante que hoje escolhemos. olho para quem me acompanha nesta refeição e vejo um crescente brilho nos olhos à medida que o pedido se vai aproximando. talvez esteja essa pessoa a passar pelo que sofrimento que acabei de sentir na pele, e em todo o meu sistema digestivo. pois, mais uma vez o pedido foge-nos e vai directo para uma mesa que não devia estar ocupada, e cujos ocupantes não deveriam ter feito um pedido igual ao nosso!

a esta hora já as minhas papilas gustativas choram convulsivamente, desesperando por algo que teima em tardar! mais uma vez, uma mirada ao vazio pires das entradas. já nem a broa sobrevive.

e eis que…’será desta??? é desta!!’.

‘ora aqui está o seu pedido! bom apetite!’, respondo-lhe com um murmurado obrigado – a concentração já está noutro lugar.

começo a comer, e a provar os ingredientes que me fizeram aumentar a ansiedade, a frustração, o desânimo. confesso que depois de tanto tempo, esperava algo melhor. bolas, quem espera desespera!

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